A CARTA DA TERRA

Durante a  Rio-92 foi consolidado o conceito de desenvolvimento sustentável, a Agenda 21, instrumento de planejamento para a construção de sociedades sustentáveis e, por fim, também teve a proposta de se fazer a Carta da Terra, a qual só foi finalizada em 2000.

Não faz muito tempo que li a Carta da Terra pela primeira vez. Eu fiquei encantada com a clareza e entendimento do que é a Real Sustentabilidade. Foi o primeiro passo para os Objetivos do Milênio (2000) e para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (2015). Só fico me perguntando: Por que ainda estamos 20 anos depois clamando para que a Carta da Terra seja lida (sentida) em voz alta pelos líderes?

Segue abaixo na íntegra.

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PREÂMBULO

Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a
humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais
interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes
promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio da uma magnífica
diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações.

Terra, Nosso Lar

A humanidade é parte de um vasto universo em evolução. A Terra, nosso lar, está viva com uma comunidade de vida única. As forças da natureza fazem da existência uma aventura exigente e incerta, mas a Terra providenciou as condições essenciais para a evolução da vida. A capacidade de recuperação da comunidade da vida e o bem-estar da humanidade dependem da preservação de uma biosfera saudável com todos seus sistemas ecológicos, uma rica variedade de plantas e animais, solos férteis, águas puras e ar limpo. O meio ambiente global com seus recursos finitos é uma preocupação comum de todas as pessoas. A proteção da vitalidade, diversidade e beleza da Terra é um dever sagrado.

A Situação Global

Os padrões dominantes de produção e consumo estão causando devastação ambiental,
redução dos recursos e uma massiva extinção de espécies. Comunidades estão sendo
arruinadas. Os benefícios do desenvolvimento não estão sendo divididos equitativamente e o fosso entre ricos e pobres está aumentando. A injustiça, a pobreza, a ignorância e os conflitos violentos têm aumentado e são causa de grande sofrimento. O crescimento sem precedentes da população humana tem sobrecarregado os sistemas ecológico e social. As bases da segurança global estão ameaçadas. Essas tendências são perigosas, mas não inevitáveis.

Desafios Para o Futuro

A escolha é nossa: formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida. São necessárias mudanças fundamentais dos nossos valores, instituições e modos de vida. Devemos entender que, quando as necessidades básicas forem atingidas, o desenvolvimento humano será primariamente voltado a ser mais, não a ter mais. Temos o conhecimento e a tecnologia necessários para abastecer a todos e reduzir nossos impactos ao meio ambiente. O surgimento de uma sociedade civil global está criando novas oportunidades para construir um mundo democrático e humano. Nossos desafios ambientais, econômicos, políticos, sociais e espirituais estão interligados, e juntos podemos forjar soluções includentes.

Responsabilidade Universal

Para realizar estas aspirações, devemos decidir viver com um sentido de responsabilidade universal, identificando-nos com toda a comunidade terrestre bem como com nossa comunidade local. Somos, ao mesmo tempo, cidadãos de nações diferentes e de um mundo no qual a dimensão local e global estão ligadas. Cada um compartilha da responsabilidade pelo presente e pelo futuro, pelo bem-estar da família humana e de todo o mundo dos seres vivos. O espírito de solidariedade humana e de parentesco com toda a vida é fortalecido quando vivemos com reverência o mistério da existência, com gratidão pelo dom da vida, e com humildade considerando em relação ao lugar que ocupa o ser humano na natureza. Necessitamos com urgência de uma visão compartilhada de valores básicos para proporcionar um fundamento ético à comunidade mundial emergente. Portanto, juntos na esperança, afirmamos os seguintes princípios, todos interdependentes, visando um modo de vida sustentável como critério comum, através dos quais a conduta de todos os indivíduos, organizações, empresas, governos, e instituições transnacionais será guiada e avaliada.

PRINCÍPIOS
I. RESPEITAR E CUIDAR DA COMUNIDADE DA VIDA

1. Respeitar a Terra e a vida em toda sua diversidade.

a. Reconhecer que todos os seres são interligados e cada forma de vida tem valor,
independentemente de sua utilidade para os seres humanos.
b. Afirmar a fé na dignidade inerente de todos os seres humanos e no potencial intelectual, artístico, ético e espiritual da humanidade.

2. Cuidar da comunidade da vida com compreensão, compaixão e amor.

a. Aceitar que, com o direito de possuir, administrar e usar os recursos naturais vem o dever de impedir o dano causado ao meio ambiente e de proteger os direitos das pessoas.
b. Assumir que o aumento da liberdade, dos conhecimentos e do poder implica
responsabilidade na promoção do bem comum.

3. Construir sociedades democráticas que sejam justas, participativas, sustentáveis e pacíficas.

a. Assegurar que as comunidades em todos níveis garantam os direitos humanos e as
liberdades fundamentais e proporcionem a cada um a oportunidade de realizar seu pleno potencial.
b. Promover a justiça econômica e social, propiciando a todos a consecução de uma
subsistência significativa e segura, que seja ecologicamente responsável.

4. Garantir as dádivas e a beleza da Terra para as atuais e as futuras gerações.

a. Reconhecer que a liberdade de ação de cada geração é condicionada pelas necessidades das gerações futuras.
b. Transmitir às futuras gerações valores, tradições e instituições que apoiem, em longo prazo, a prosperidade das comunidades humanas e ecológicas da Terra.

Para poder cumprir estes quatro amplos compromissos, é necessário:

II. INTEGRIDADE ECOLÓGICA

5. Proteger e restaurar a integridade dos sistemas ecológicos da Terra, com especial preocupação pela diversidade biológica e pelos processos naturais que sustentam a vida.

a. Adotar planos e regulamentações de desenvolvimento sustentável em todos os níveis que façam com que a conservação ambiental e a reabilitação sejam parte integral de todas as iniciativas de desenvolvimento.
b. Estabelecer e proteger as reservas com uma natureza viável e da biosfera, incluindo terras selvagens e áreas marinhas, para proteger os sistemas de sustento à vida da Terra, manter a biodiversidade e preservar nossa herança natural.
c. Promover a recuperação de espécies e ecossistemas ameaçadas.
d. Controlar e erradicar organismos não-nativos ou modificados geneticamente que causem dano às espécies nativas, ao meio ambiente, e prevenir a introdução desses organismos daninhos.
e. Manejar o uso de recursos renováveis como água, solo, produtos florestais e vida marinha de forma que não excedam as taxas de regeneração e que protejam a sanidade dos ecossistemas.
f. Manejar a extração e o uso de recursos não-renováveis, como minerais e combustíveis
fósseis de forma que diminuam a exaustão e não causem dano ambiental grave.

6. Prevenir o dano ao ambiente como o melhor método de proteção ambiental e, quando o conhecimento for limitado, assumir uma postura de precaução.

a. Orientar ações para evitar a possibilidade de sérios ou irreversíveis danos ambientais
mesmo quando a informação científica for incompleta ou não conclusiva.
b. Impor o ônus da prova àqueles que afirmarem que a atividade proposta não causará dano significativo e fazer com que os grupos sejam responsabilizados pelo dano ambiental.
c. Garantir que a decisão a ser tomada se oriente pelas conseqüências humanas globais,
cumulativas, de longo prazo, indiretas e de longo alcance.
d. Impedir a poluição de qualquer parte do meio ambiente e não permitir o aumento de
substâncias radioativas, tóxicas ou outras substâncias perigosas.
e. Evitar que atividades militares causem dano ao meio ambiente.

7. Adotar padrões de produção, consumo e reprodução que protejam as capacidades regenerativas da Terra, os direitos humanos e o bem-estar comunitário.

a. Reduzir, reutilizar e reciclar materiais usados nos sistemas de produção e consumo e
garantir que os resíduos possam ser assimilados pelos sistemas ecológicos.
b. Atuar com restrição e eficiência no uso de energia e recorrer cada vez mais aos  recursos energéticos renováveis, como a energia solar e do vento.
c. Promover o desenvolvimento, a adoção e a transferência equitativa de tecnologias
ambientais saudáveis.
d. Incluir totalmente os custos ambientais e sociais de bens e serviços no preço de venda e habilitar os consumidores a identificar produtos que satisfaçam as mais altas normas sociais e ambientais.
e. Garantir acesso universal à assistência de saúde que fomente a saúde reprodutiva e a
reprodução responsável.
f. Adotar estilos de vida que acentuem a qualidade de vida e subsistência material num mundo finito.

8. Avançar o estudo da sustentabilidade ecológica e promover a troca aberta e a ampla aplicação do conhecimento adquirido.

a. Apoiar a cooperação científica e técnica internacional relacionada a sustentabilidade, com especial atenção às necessidades das nações em desenvolvimento.
b. Reconhecer e preservar os conhecimentos tradicionais e a sabedoria espiritual em todas as culturas que contribuam para a proteção ambiental e o bem-estar humano.
c. Garantir que informações de vital importância para a saúde humana e para a proteção
ambiental, incluindo informação genética, estejam disponíveis ao domínio público.

III. JUSTIÇA SOCIAL E ECONÔMICA

9. Erradicar a pobreza como um imperativo ético, social e ambiental.

a. Garantir o direito à água potável, ao ar puro, à segurança alimentar, aos solos não contaminados, ao abrigo e saneamento seguro, distribuindo os recursos nacionais e
internacionais requeridos.
b. Prover cada ser humano de educação e recursos para assegurar uma subsistência
sustentável, e proporcionar seguro social e segurança coletiva a todos aqueles que não são capazes de manter-se por conta própria.
c. Reconhecer os ignorados, proteger os vulneráveis, servir àqueles que sofrem, e permitir-lhes desenvolver suas capacidades e alcançar suas aspirações.

10. Garantir que as atividades e instituições econômicas em todos os níveis promovam o desenvolvimento humano de forma equitativa e sustentável.

a. Promover a distribuição equitativa da riqueza dentro das e entre as nações.
b. Incrementar os recursos intelectuais, financeiros, técnicos e sociais das nações em
desenvolvimento e isentá-las de dívidas internacionais onerosas.
c. Garantir que todas as transações comerciais apoiem o uso de recursos sustentáveis, a
proteção ambiental e normas trabalhistas progressistas.
d. Exigir que corporações multinacionais e organizações financeiras internacionais atuem com transparência em benefício do bem comum e responsabilizá-las pelas conseqüências de suas atividades.

11. Afirmar a igualdade e a equidade de gênero como pré-requisitos para o desenvolvimento sustentável e assegurar o acesso universal à educação, assistência de saúde e às oportunidades econômicas.

a. Assegurar os direitos humanos das mulheres e das meninas e acabar com toda violência contra elas.
b. Promover a participação ativa das mulheres em todos os aspectos da vida econômica,
política, civil, social e cultural como parceiras plenas e paritárias, tomadoras de decisão, líderes e beneficiárias.
c. Fortalecer as famílias e garantir a segurança e a educação amorosa de todos os membros da família.

12. Defender, sem discriminação, os direitos de todas as pessoas a um ambiente natural
e social, capaz de assegurar a dignidade humana, a saúde corporal e o bem-estar
espiritual, concedendo especial atenção aos direitos dos povos indígenas e minorias.

a. Eliminar a discriminação em todas suas formas, como as baseadas em raça, cor, gênero, orientação sexual, religião, idioma e origem nacional, étnica ou social.
b. Afirmar o direito dos povos indígenas à sua espiritualidade, conhecimentos, terras e
recursos, assim como às suas práticas relacionadas a formas sustentáveis de vida.
c. Honrar e apoiar os jovens das nossas comunidades, habilitando-os a cumprir seu papel
essencial na criação de sociedades sustentáveis.
d. Proteger e restaurar lugares notáveis pelo significado cultural e espiritual.

IV.DEMOCRACIA, NÃO VIOLÊNCIA E PAZ

13. Fortalecer as instituições democráticas em todos os níveis e proporcionar-lhes transparência e prestação de contas no exercício do governo, participação inclusiva na tomada de decisões, e acesso à justiça.

a. Defender o direito de todas as pessoas no sentido de receber informação clara e oportuna sobre assuntos ambientais e todos os planos de desenvolvimento e atividades que poderiam afetá-las ou nos quais tenham interesse.
b. Apoiar sociedades civis locais, regionais e globais e promover a participação significativa de todos os indivíduos e organizações na tomada de decisões.
c. Proteger os direitos à liberdade de opinião, de expressão, de assembléia pacífica, de
associação e de oposição.
d. Instituir o acesso efetivo e eficiente a procedimentos administrativos e judiciais
independentes, incluindo retificação e compensação por danos ambientais e pela ameaça de tais danos.
e. Eliminar a corrupção em todas as instituições públicas e privadas.
f. Fortalecer as comunidades locais, habilitando-as a cuidar dos seus próprios ambientes, e atribuir responsabilidades ambientais aos níveis governamentais onde possam ser cumpridas mais efetivamente.

14. Integrar, na educação formal e na aprendizagem ao longo da vida, os conhecimentos, valores e habilidades necessárias para um modo de vida sustentável.

a. Oferecer a todos, especialmente a crianças e jovens, oportunidades educativas que lhes permitam contribuir ativamente para o desenvolvimento sustentável.
b. Promover a contribuição das artes e humanidades, assim como das ciências, na educação para sustentabilidade.
c. Intensificar o papel dos meios de comunicação de massa no sentido de aumentar a
sensibilização para os desafios ecológicos e sociais.
d. Reconhecer a importância da educação moral e espiritual para uma subsistência
sustentável.

15. Tratar todos os seres vivos com respeito e consideração.

a. Impedir crueldades aos animais mantidos em sociedades humanas e protegê-los de
sofrimentos.
b. Proteger animais selvagens de métodos de caça, armadilhas e pesca que causem
sofrimento extremo, prolongado ou evitável.
c. Evitar ou eliminar ao máximo possível a captura ou destruição de espécies não visadas.

16. Promover uma cultura de tolerância, não violência e paz.

a. Estimular e apoiar o entendimento mútuo, a solidariedade e a cooperação entre todas as pessoas, dentro das e entre as nações.
b. Implementar estratégias amplas para prevenir conflitos violentos e usar a colaboração na resolução de problemas para manejar e resolver conflitos ambientais e outras disputas.
c. Desmilitarizar os sistemas de segurança nacional até chegar ao nível de uma postura não provocativa da defesa e converter os recursos militares em propósitos pacíficos, incluindo restauração ecológica.
d. Eliminar armas nucleares, biológicas e tóxicas e outras armas de destruição em massa.
e. Assegurar que o uso do espaço orbital e cósmico mantenha a proteção ambiental e a paz.
f. Reconhecer que a paz é a plenitude criada por relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas, outras culturas, outras vidas, com a Terra e com a totalidade maior da qual somos parte.

O CAMINHO ADIANTE

Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo. Tal renovação é a promessa dos princípios da Carta da Terra. Para cumprir esta promessa, temos que nos comprometer a adotar e promover os valores e objetivos da Carta. Isto requer uma mudança na mente e no coração. Requer um novo sentido de
interdependência global e de responsabilidade universal. Devemos desenvolver e aplicar com imaginação a visão de um modo de vida sustentável aos níveis local, nacional, regional e global. Nossa diversidade cultural é uma herança preciosa, e diferentes culturas encontrarão suas próprias e distintas formas de realizar esta visão. Devemos aprofundar expandir o diálogo global gerado pela Carta da Terra, porque temos muito que aprender a partir da busca iminente e conjunta por verdade e sabedoria.
A vida muitas vezes envolve tensões entre valores importantes. Isto pode significar escolhas difíceis. Porém, necessitamos encontrar caminhos para harmonizar a diversidade com a unidade, o exercício da liberdade com o bem comum, objetivos de curto prazo com metas de longo prazo. Todo indivíduo, família, organização e comunidade têm um papel vital a desempenhar. As artes, as ciências, as religiões, as instituições educativas, os meios de comunicação, as empresas, as organizações não-governamentais e os governos são todos chamados a oferecer uma liderança criativa. A parceria entre governo, sociedade civil e empresas é essencial para uma governabilidade efetiva. Para construir uma comunidade global sustentável, as nações do mundo devem renovar seu compromisso com as Nações Unidas, cumprir com suas obrigações respeitando os acordos internacionais existentes e apoiar a implementação dos princípios da Carta da Terra com um instrumento internacional legalmente unificador quanto ao ambiente e ao desenvolvimento. Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, a intensificação da luta pela justiça e pela paz, e a alegre celebração da vida.

Fonte: MMA.

RECONSTRUIR A VERDADEIRA SEGURANÇA NA ERA DA INSEGURANÇA – Vandana Shiva.

ESTE TEXTO É DA VANDANA SHIVA, QUE FOI PUBLICADO NO LIVRO ECONOMIA DE GAIA,  ORGANIZAÇÃO DO GAIA EDUCATION.

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A HUMANIDADE PARECE ESTAR em queda livre rumo ao desastre. A estrutura ecológica da nossa existência está sendo destruída à medida que a violência da globalização corporativa se une à violência da guerra.

Alternativas à guerra, à não sustentabilidade e à justiça social e econômica têm se tornado uma imposição para sobrevivência. Ela precisa combinar a atitude de fazer as pazes com o planeta com atitude de fazer as pazes entre pessoas de culturas distintas. Uma não é possível sem a outra. As raízes do terrorismo, da violência e da guerra encontram-se na exclusão econômica e ambiental e na segurança que ela gera. A segurança das pessoas não está em orçamentos militares mais volumosos, bombas maiores e nem estados policialescos mais fortes. Está na segurança ecológica, econômica, cultural e política. A reconstrução dessas múltiplas seguranças é a única maneira de criar paz, justiça e sustentabilidade.

Por que nós, como espécie, estamos destruindo o próprio alicerce de nossa sobrevivência e existência? Por que a insegurança tem sido o resultado de todas as tentativas de criar segurança? Como nós, na condição de membros da comunidade da terra, podemos reinventar a segurança para garantir a sobrevivência de todas as espécies e o futuro de culturas distintas? Como passar das ruínas da cultura da morte da destruição para cultura que sustenta e celebra a vida?

Podemos fazer essa passagem libertando-nos da prisão mental da separação e da exclusão, para ver o mundo em toda sua interconexão e indissociabilidade, permitindo que novas alternativas surjam. O desespero se transforma em esperança. A violência abre caminho para não violência. A escassez se transforma em abundância, e a insegurança, em segurança. Precisamos mais uma vez sentir em casa na Terra e entre nós. Temos necessidade de um novo paradigma que nos permita passar da cultura difusa da violência para cultura da não-violência, da criatividade e da paz: esse é o paradigma da Democracia da Terra.

 A Democracia da Terra se baseia na criação de ECONOMIAS VIVAS que protejam a vida na Terra, supram as necessidades básicas e promovam segurança econômica para todos. Ela tem como base uma democracia ativa, que é inclusiva. O movimento da Democracia da Terra é um compromisso de superar a crise da injustiça e da desigualdade econômica, da não sustentabilidade ecológica, o declínio da democracia e a ascensão do terrorismo. Esse movimento oferece uma visão de mundo alternativa, na qual seres humanos estão integrados a família terrestre. Começamos a ver que estamos conectados pelo amor, pela compaixão, pela responsabilidade ecológica e pela justiça econômica, que substituem a ganância, consumismo e a competição como objetivos da vida humana.

Na Democracia da Terra, a economia, política e a sociedade passam de sistemas negativos, que beneficiam apenas alguns em curto prazo, para sistemas positivos, que garantem o direito fundamental a vida de todas as espécies. A manutenção da vida em sua diversidade e a integridade é a base das relações na Democracia da Terra.

Assim, ela transforma nossa mente e nossas ações, e nos livra de padrões de pensamento e para que nos levaram a situação difícil em que estamos hoje. Também nos ajuda a enfrentar as raízes comuns de problemas que são definidos, isoladamente, como econômicos, ecológicos e políticos. A Democracia da Terra nos capacita a fazer mudanças mentais e contribuem para a satisfação de nossas necessidades tem dentre outras espécies e culturas, e para o aprimoramento do bem-estar humano, enquanto assegura o bem-estar de todos os seres. Na Índia, rogamos: “Que todos os seres sejam felizes”.

A Democracia da Terra agrega princípios que nos permitem transcender a polarização, as divisões e as discussões que colocam a economia contra ecologia, o desenvolvimento contra o meio ambiente, as pessoas contra o planeta, e as nações umas contra as outras, em uma nova cultura de medo e ódio. A Democracia da Terra está simbolizada nas fazendas que revitalizam a biodiversidade e nas espécies que atuam em mutualidade para beneficiar umas às outras. Ela também oferece um novo contexto ao ser humano, como um dos membros da família terrestre e das diversas culturas no mosaico da diversidade cultural.

Visto que as outras espécies não votam, não podem influenciar políticos e não tem poder de compra no mercado, a Democracia da Terra nos obriga, como humanos, a levar em conta o bem-estar das espécies. Como Sua Santidade o Dalai Lama disse em seu 60º aniversario: “Todos os seres têm direito ao bem-estar e a felicidade. Temos o dever de garantir o seu bem-estar”. Isso cria a responsabilidade humana de atuarmos com administradores, em vez da noção preponderante de soberania, controle e posse.

A Democracia da Terra privilegia a diversidade de forma e de função na natureza e na sociedade. Quando a relevância e o valor intrínseco de todas as formas de vida são reconhecidos, as diversidades biológicas e cultural desabrocham. As monoculturas são resultado da exclusão e da dominação de espécies: único tipo, uma única raça, uma única religião, uma única visão de mundo. Elas são uma indicação de coerção e de perda da liberdade. Liberdade implica diversidade. Diversidade significa liberdade.

A Democracia da Terra nutre a diversidade pela superação da lógica da exclusão, do Apartheid, do “nós e eles” e do “uma coisa ou outra”. Ela implica a multifuncionalidade, na lógica do “e” e da inclusão. Transcende a polarização falsa do selvagem versus o refinado, da natureza versus a cultura, e até mesmo falso choque de culturas. Leva em consideração o conjunto da agrofloresta, tanto a área agrícola quanto a florestal, reconhece que a biodiversidade pode ser preservada e também pode suprir as necessidades humanas. Por meio da substituição das monoculturas pela diversidade e dos sistemas unidimensionais pela multidimensionalidade, a economia negativa da criação de escassez pode ser substituída pela economia positiva da abundância compartilhada, da provisão garantida das necessidades básicas e do acesso aos recursos vitais. Diversidade a criatividade prosperam na natureza e na cultura.

A Democracia da Terra coloca a responsabilidade do centro das nossas relações com os direitos decorrentes dela; diferentemente do paradigma dominante, em que há direito sem responsabilidade e vice-versa. A separação de direitos e responsabilidade está na raiz da devastação ecológica e das desigualdades de gênero e classe. As corporações que lucram com a indústria química, ou a poluição genética derivada das plantações geneticamente modificadas, não são obrigadas a arcar com o fardo dessa poluição. Os custos sociais e ecológicos são exteriorizados e pesam sobre os outros, que foram excluídos das decisões e dos benefícios.

A Democracia da Terra baseia-se na aqueles que pagam o preço por terem voz, e aqueles que carregam uma responsabilidade por terem direitos. Isso cria uma democracia direta ou básica. Por um lado, implica o deslocamento descendente das decisões, indo das instituições globais e dos governos centralizados para as comunidades locais. Por outro, implica uma mudança na nossa interpretação de soberania. Portanto, a Democracia da Terra transfere a constelação de poder das corporações para as pessoas, e desse modo, reequilibra o papel e as funções do Estado, que vem se tornando cada vez mais antidemocrático.

A Democracia da Terra tem a ver com a vida, com direito natural às condições de estar vivo. Trata-se da vida cotidiana das decisões e liberdades relacionadas ao dia a dia – a comida que comemos, as roupas que vestimos, água que bebemos. Não se trata apenas de eleições e do ato de votar. É uma democracia permanentemente vibrante. Combina democracia econômica com as democracias política e ecológica. Ela gera economia, políticas e identidades positivas. Também cria segurança e, assim, condições para a paz.

 Ela oferece potencial para mudar a maneira como o governo, organizações e corporações intergovernamentais operam. Cria um novo paradigma para a governança global, enquanto dá poder as comunidades locais. Também cria a possibilidade de fortalecimento da segurança ecológica, à medida que aprimora a segurança econômica. Com base nas seguranças ecológica e econômica, ela torna as sociedades imunes ao vírus do ódio e do medo. A Democracia da Terra oferece uma nova maneira de ver as coisas, na qual algo não está em guerra como com todo o resto, mas por meio da qual podemos cooperar para a criação da paz, da sustentabilidade e da justiça.