Economia de um jeito que você nunca viu: seria possível mudar nosso indicador econômico?

Continuado a série de artigos sobre uma Nova Economia, compartilho um artigo publicado no Linkedin, da minha amiga gaiana e também designer para a Sustentabilidade, Amanda Colmenero.

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Esse texto é dividido em 2 partes. A primeira é como a economia se comporta hoje: infinita, degenerativa, linear e eliminadora. E depois como podemos nos movimentar para evoluir nosso sistema econômico, incluindo a explicação do modelo doughnut recém adotado pela Holanda.

Qual principal indicador da economia hoje?

O PIB. Que é a soma de todos os bens e serviços finais produzidos por um país em um ano. Simples assim: um número que mede riqueza anual.

Quando existe uma crise, um PIB negativo, temos menos moeda em circulação, com menos bens e serviços sendo produzidos e monetizados em relação ao ano anterior. Porém, ainda existe riqueza intelectual e braçal para serviços que não foram prestados, bens já produzidos no passado que ainda existem e funcionam como imóveis, automóveis, roupas etc.

A forma de mensurar a economia atualmente, estabelece que tenhamos que crescer de modo infinito sempre produzindo e trocando moeda, mesmo que já sejamos ricos em relação ao que temos. Afinal, PIB negativo = crise, PIB em crescimento = sucesso.

Yuval Noah Harari, em seu livro Sapiens: uma breve história da humanidade, escreveu: “No ano 1500, havia cerca de 500 milhões de Homo sapiens em todo mundo. Hoje, há 7 bilhões. Estima-se que o valor total dos bens e serviços produzidos pela humanidade no ano 1500 era de 250 bilhões de dólares. Hoje, o valor de um ano de produção humana é aproximadamente 60 trilhões de dólares. Em 1500, a humanidade consumia por volta de 13 trilhões de calorias de energia por dia. Hoje, consumimos 1,5 quatrilhão de calorias por dia. (Preste atenção nesses números: a população humana aumentou 14 vezes; a produção, 240 vezes; e o consumo de energia, 115 vezes)”.

Sabe o que isso significa? Que para sustentar o crescimento infinito da economia, o ser humano está precisando cada vez de mais coisas, com uma produção crescendo em uma proporção 17 vezes maior que o crescimento populacional.

Mas, se praticamente tudo o que é produzido precisa de matéria-prima e energia, e isso vem da natureza, como podemos contar com um crescimento infinito se o planeta, e diversos recursos explorados são finitos? (Aqui estamos falando de longo prazo também, não podemos limitar a existência do planeta a nossa existência. Não é porque enquanto estivermos vivos ainda existirá petróleo, por exemplo, que não tenhamos que pensar que alguma geração viverá sem petróleo.)

E a que custo crescemos infinitamente? Com a outra característica da economia atual: ela é degenerativa. Não importa a maneira que iremos fazer a exploração da natureza para o PIB crescer. Sabemos que existem animais extintos por influência humana, sistemas florestais derrubados, gases emitidos na atmosfera em ritmo superior ao que a natureza consegue absorver e que ficam acumulados por até 100 anos, águas poluídas, entre outros.

Enquanto se discute bastante em meio a pandemia do coronavírus a importância de acreditar e validar a ciência, a mesma já diz há muito tempo que esse crescimento infinito pode nos levar ao esgotamento do planeta. E sem matéria-prima e energia, o valor do PIB no longo prazo será zero.

A economia hoje também é linear. Baseada em um sistema de extrai – produz – consome – descarta. Isso não só é ruim do ponto de vista de agressão à natureza, pois cada extração causa impacto e o descarte é sempre de materiais que a natureza definitivamente não precisa, como ainda é um sistema ineficiente do ponto de vista produtivo que gera muitos desperdícios. Ao invés de lucrar com o descarte de materiais ou desperdícios de processos, na pressa, muitas possíveis matérias-primas são jogadas fora encerrando um ciclo que ainda poderia gerar dinheiro. Apenas 3% do lixo é reciclado no Brasil, isso é desperdício de matéria que vai para aterros sanitários. O prejuízo de alimentos jogados fora são estimados em 750 bilhões de dólares no mundo, e metade desse valor ocorre na comercialização dos alimentos, ou seja, eles são jogados fora porque não são mais atrativos no mercado.

Outra característica atual é ser eliminadora. Como quanto mais produzimos e lucramos, mais sucesso temos, precisamos produzir mais com menos. Isso inclui pessoas, que são uma parte elevada dos custos de uma empresa. Portanto, sobrecarregamos algumas pessoas de trabalho, enquanto outras estão desempregadas.

Se de um lado, as pessoas sobrecarregadas podem sofrer de estresse, ansiedade, burnout, pânico, etc, do outro lado as pessoas desempregadas tem potenciais enormes de produção e muitas vezes estão fazendo trabalhos invisíveis não remunerados (love economy).

Na teoria do bolo abaixo, de Hazel Henderson, ela fala que para o PIB acontecer, existe todo um trabalho por trás não remunerado que sustenta a economia tradicional monetizada. Na economia da solidariedade temos a maternidade e paternidade, o voluntariado, o compartilhamento de conhecimento e objetos, os afazeres domésticos, o trânsito… Muitas vezes tem pessoas que exercem os dois papeis, os monetizados e os não, o que sobrecarrega ainda mais alguns. E tudo isso também é sustentado pela natureza que oferece alimento, energia e matéria-prima para a produção. Que também não é pago. Nenhum valor é destinado para terra quando é feita uma extração.

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E se o sistema econômico hoje tem tantas falhas, como podemos melhorar isso?

A mudança que geraria mais impacto seria: mudar o indicador de sucesso, o PIB. Ao invés de mover esforços para produzir mais e infinitamente, outras variáveis seriam incluídas. Recentemente, também em meio a pandemia e para minimizar seus efeitos econômicos, a Holanda declarou que passará a medir o sucesso do país via o modelo doughnut, criado por Kate Raworth:

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O que o indicador Doughnut diz? Existe um teto ecológico que não deve ser ultrapassado, portanto, cada país seria medido pela poluição do ar, das águas, perda de biodiversidade etc. E existe uma meta de indicadores sociais mínima: acesso a água, energia, educação, igualdade de gênero etc. Isso significa que um país bem sucedido, seria o que consegue ter todos os indicadores sociais cumpridos, dentro do teto ecológico estipulado.

Percebem a diferença de mentalidade? No final do ano, ao invés de você estabelecer como meta mais importante aumentar a produção, você precisará exercer a criatividade para cumprir uma série de requisitos sociais e ecológicos.

Essa mudança no indicador oficial da economia já melhoraria todos os pontos comentados anteriormente. Ela não precisaria mais ser infinita porque a meta não é mais crescer. Ela não seria mais degenerativa porque uma das metas é manter o equilíbrio ecológico. Dentro desses limites ecológicos a tendência seria deixar de ser linear, porque todos os recursos precisariam ser aproveitados ao máximo. E também não precisaria mais ser eliminadora já que pessoas também são um pilar do Doughnut.

Isso significaria que o dinheiro deixaria de existir e que eu não poderia mais lucrar? Ou que coisas que temos hoje não poderiam mais circular? Seria a implementação do comunismo? Não! Isso significa que temas que atualmente tem pouco valor na sociedade passarão a ganhar relevância, aumentando o bolo do que é realmente importante para as pessoas e o planeta.

Para facilitar, dou um exemplo: se hoje eu tenho uma mineradora que causa um grande impacto ambiental nas suas extrações, sim, eu posso diminuir meu lucro. Mas surgirá (ou aumentará de tamanho) outras empresas de reciclagem que recolhem minérios que foram jogados fora, que façam separação das peças boas em eletrônicos que não funcionam mais, dentre outras soluções.

Outro exemplo: se hoje tenho na formulação de um shampoo que produzo componentes químicos baratos que ao serem eliminados poluem as águas, posso diminuir meu lucro tendo que substituir esses componentes. Mas empresas que produzem substitutos mais caros, porém biodegradáveis, podem lucrar mais, bem como empresas especializadas na limpeza das águas já sujas.

Mais um exemplo social: se hoje pago um salário muito baixo para meus funcionários que os impossibilita de ter acesso a necessidades básicas, pode ser que tenha que aumentar esse salário, o que reduziria meu lucro. Mas eles, com mais acesso, movimentarão a economia comprando outras coisas, que passarão a vender mais. Conclusão, é uma redistribuição da renda para focar em pontos que são relevantes para maioria. Alguns perdem dinheiro, outros ganham, como o sistema atual inclusive.

Como curiosidade, mesmo não sendo oficial, os indicadores que compõem o Doughnut já são medidos atualmente por alguns institutos nos seus países. E olha os resultados do Brasil comparado com outras nações:

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Brasil em relação a Holanda – Igualdade social é nosso pior indicador social, mas também faltaria atingir metas de acesso a saneamento básico, qualidade da nossa democracia, expectativa de vida, e o print não mostra muito bem, mas tem um pequeno gap em nível de emprego também. Reparem, que ainda assim o doughnut não é perfeito. Pois ele mostra que o Brasil atingiu o nível mínimo esperado de acesso a educação, e sabemos que ainda existem oportunidades na sua qualidade. E mesmo tendo metas sociais não atingidas, extrapolamos quase todos os ideais ecológicos. Agora vejam o exemplo da Holanda. Cumpre todos os requisitos mínimos sociais, porém, a parte ecológica ultrapassa os limites que seriam suportados pelo planeta. Isso significa que se o mundo fosse igual a Holanda, nosso planeta esgotaria muito mais cedo. Daqui para frente o foco no país será manter suas condições sociais, e melhorar muito as condições ecológicas. Provavelmente passarão por medidas que aumentem o uso de energia limpa, melhores tratamentos dos dejetos tóxicos das indústrias, entre outras.

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Já quando nos comparamos com um país africano, vejam que temos muitas vantagens com relação ao acesso básico de questões sociais. Mas em compensação, o Quênia não ultrapassa nenhuma barreira ecológica. Se o país tivesse a economia doughnut como medida, teria que pensar em alternativas de como mantém sua ecologia, mas inclui as pessoas em diversos campos básicos.

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Já nosso vizinho, a Argentina, que normalmente é conhecido como um país com uma economia fraca, se tivesse o doughnut como medida estaria melhor que nós! Eles cumprem mais requisitos sociais como acesso a saneamento básico e expectativa de vida, e na parte ecológica, embora ultrapassem os mesmos limites que nós, conseguem ter um indicativo menor para fósforo (normalmente associado ao excesso colocado na terra através do uso de agrotóxicos, e também rejeito industrial que cai nas águas), e a pegada ecológica de materiais está melhor do que a nossa também (que representa a forma como é feita a extração de matéria-prima). Apenas em emissão de gás carbônico somos melhores que a Argentina, mas ainda assim longe do ideal.

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E por último, em comparação com os Estados Unidos, maior potência econômica mundial atualmente, com maior PIB, eles não assumiriam o posto de país com melhor indicador doughnut. Vemos que o país não cumpre com o mínimo social, e ultrapassa a barreira ecológica de todos os quesitos! (aqui novamente o print não ajudou muito, mas em “blue water” tem um sombreado, que mostra que ultrapassou essa medida, que é a quantidade de água potável consumida em um ano)

Link do site caso queiram fazer comparações com outros países: https://goodlife.leeds.ac.uk/countries/#Brazil

Muito legal, Amanda, mas achei esse olhar impossível de ser aplicado e não vejo como trazer isso para realidade se não fosse um movimento coletivo e global. Concordo que existem dificuldades, não que seja impossível visto que a Holanda está adotando. Mas trago algumas pequenas ações que poderiam colaborar para uma mudança nas 4 características da nossa economia que atrapalham o planeta e as questões sociais:

Do crescimento infinito ao finito – colocar a natureza e as pessoas no centro das decisões. Assumir que talvez tenham anos que sim, a empresa pode não crescer (o que já acontece naturalmente em diversos lugares, muitos só não aceitam e não lidam bem com isso), e olhar para o longo prazo. Quando poupamos os recursos naturais estamos fazendo bem para humanidade, e em um ambiente de trabalho seguro e saudável as pessoas produzem melhor para sair da crise. Tenho certeza que as empresas que entraram em crise agora com o coronavírus, mas seguraram empregos e estão se esforçando para manter um equilíbrio interno serão as que vão se recuperar mais rápido.

Da degeneração para regeneração – se existe algo que sua empresa faz que gera um grande impacto no meio ambiente, isso deve ser repensado já! Vários impactos podem ser resolvidos inclusive com redução de custos, como é o caso de algumas fábricas que tem instalado sistemas de energias que fazem 1 kilowatt circular ao máximo durante a produção, reduzindo suas contas de energia elétrica. E se você já fez todos os estudos possíveis e não vê saída para o seu impacto ambiental, compense! Já existem empresas especializadas em compensação de impacto ambiental, elas fazem reflorestamentos, resgate de carbono, despoluição de águas…E ainda pode abater uma parte do imposto!

Do linear para o circular – aqui vale começar por um processo de Lean Manufacturing (hoje feito inclusive para serviços). Quais são todos os recursos que precisa para seu negócio existir e todos os desperdícios que ele gera? Existe alguma forma de aproveitar o que já existe? A SC Johnson, por exemplo, tem um programa que pega dos oceanos embalagens que caíram acidentalmente dos seus produtos e concorrentes e recicla essas embalagens. A indústria de inseticida como um todo, quando existe essa possibilidade porque o volume ainda é baixo, compra resíduo de guimba de cigarro. Essas próprias guimbas, depois que tem suas toxinas eliminadas e enviadas para indústria de inseticida, tem seu papel reciclado que se transforma em cadernos. Existem empresas agora que vendem fruta feia, mais barato para o consumidor e não gera lixo. Enfim, mil possibilidades para utilizarmos tudo o que já existe.

De eliminadora para inclusiva – se hoje, parte da população desempregada não tem espaço porque as empresas precisam que menos pessoas façam um grande trabalho para reduzir folha salarial, por que não pensar diferente e incluir mais? Talvez sim, reduzir um % do lucro. Mas com mais pessoas empregadas, e o trabalho mais dividido, potencialmente há uma redução no estresse. O que também pode gerar mais produção. A diversidade REAL também é inclusiva. Pensar no quadro e salários de mulheres, negros, LGBTQ+, pessoas com necessidades especiais, entre outros tantos grupos que tem ótimas causas. Quando eu digo REAL é porque não adianta ter mulher branca na liderança que age e pensa conforme uma cultura machista, ou mesmo exigir que ajam assim. Tem que ter mulher e incluí-la da forma como ela atua: cíclica, algumas vezes mãe e com exigências familiares… Não adianta ter homem negro na liderança que teve sorte de vir de uma família com boas condições financeiras, viveu ao redor de brancos e continua tomando decisão de acordo com a sua visão de mundo particular. Tem que ter negro que já viveu e sabe como é ser considerado marginalizado.

Em resumo, uma frase que gostaria de recapitular e incrementar é: sem matéria-prima, energia, e pessoas o valor do PIB no longo prazo será zero. Mesmo que para você pareça distante e que você esteja em uma posição muito confortável na sociedade, temos que começar agindo hoje, baseados na ciência.