CRESCIMENTO SUSTENTÁVEL: um teorema da impossibilidade.

O artigo abaixo foi tirado do livro Economia de Gaia, publicado em 2010. Incrível, toda vez que leio estes artigos de décadas atrás me pergunto, por que não tive acesso a esta informação antes? Respiro e medito. Tudo tem o seu tempo para entender. E ainda me encontro neste processo de entendimento e digestão.

Sobre o texto, único ponto que discordo, na minha visão de hoje, é não investir em serviços de informação para diminuir a pobreza. Contudo, isso não diminui a qualidade do artigo, além do mais, foi escrito no mínimo há dez anos atrás. Talvez a informação na época não era vista com a importância que tem hoje.

Autor Herman E. Daly, economista ecológico.Texto extraído de Valuing The Earth: Economics, Ecology, Ethics. Crambridge, Massachusetts: MIT Press, 1993. 

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AS DECLARAÇÕES de impossibilidade são as bases da ciência. É impossível: viajar mais rápido do que a velocidade da luz; criar ou destruir matéria-energia; construir uma máquina de moto-perpétua e assim por diante. Ao respeitar os teoremas da impossibilidade, evitamos o desperdício de recursos em projetos que estão destinados ao fracasso. Portanto, os economistas devem estar muito interessados em teoremas da impossibilidade, especialmente o que será apresentado aqui, a saber, que é impossível para a economia mundial crescer sem pobreza e degradação ambiental. Em outras palavras o crescimento sustentável é impossível.

Desafiando paradoxo econômico.

Os economistas vão alegar que o crescimento do PIB é uma mistura do aumento quantitativo e qualitativo e por isso não está estritamente sujeito às leis físicas. O argumento faz sentido. Exatamente porque as mudanças quantitativas e qualitativas são muito diferentes, é melhor mantê-las separadas e chamá-las pelos nomes distintos já fornecidos no dicionário. Crescer significa “aumentar naturalmente em tamanho pela adição de material por assimilação ou acréscimo”. Desenvolver significa “expandir ou alcançar o potencial para paulatinamente atingir o estado melhor, maior ou mais completo”.

Quando algo cresce, fica maior. Quando se desenvolve, torna-se diferente. O ecossistema da Terra se desenvolve (evolui), mas não cresce. Seu subsistema, a economia, deve parar de crescer, mas pode continuar a se desenvolver. O termo “desenvolvimento sustentável”, portanto, faz sentido para a economia, mas somente se for entendido como desenvolvimento sem crescimento, ou seja, melhoria qualitativa de uma base econômica física mantida em um estado estacionário por uma taxa de produção de matéria-energia que está dentro das capacidades assimilativas e regenerativas do ecossistema. Atualmente, o termo “desenvolvimento sustentável” é usado como sinônimo para o controverso “crescimento sustentável” ele deve ser salvo dessa ruína. Politicamente, é muito difícil admitir que o crescimento, com sua conotação quase religiosa de vontade suprema, deva ser limitado. Mas é precisamente a não sustentabilidade do crescimento que define a urgência para o conceito de desenvolvimento sustentável. A terra não vai aguentar a duplicação de nenhum único grão de farinha 64 vezes, contudo, nos últimos dois séculos, temos desenvolvido uma cultura dependente de crescimento exponencial para sua estabilidade econômica (Hubbert, 1976). O desenvolvimento sustentável é uma adaptação cultural feita pela sociedade à medida que ela se torna ciente da necessidade emergente de não crescimento. Nem o “crescimento verde” é sustentável. Há um limite para a quantidade de árvores que a terra pode suportar assim como há um limite para a quantidade de seres humanos e carros. Iludirmo-nos, acreditando que o crescimento ainda é possível e desejado se o rotularmos de “sustentável” ou tingir de “verde” irá apenas retardar a transição inevitável e torná-la mais dolorosa.

Limites para o crescimento?

Se a economia não pode crescer para sempre, então, o quanto ela pode crescer? Ela pode crescer o suficiente para dar a todos no mundo de hoje um padrão de uso de recursos per capita igual ao da média norte-americana? Para isso, seria necessário um crescimento de sete vezes, um número que se ajusta perfeitamente à recomendação da Comissão Brundtland (Brundtland et al, 1987) de que a economia mundial deve se expandir na ordem de cinco a dez vezes (1). O problema é que, mesmo uma expansão da ordem de quatro vezes é impossível, se Vitousek (Vitousek et al., 1986, p.368-373) estiver certo em seus cálculos quanto afirma que a economia humana atual se apropria de um quarto da população primária líquida da fotossíntese (PPL) (2). Nós não podemos ir além de 100%, e é pouco provável que a PPL aumente, visto que a tendência até agora para o crescimento econômico é reduzir a fotossíntese global.

Como os ecossistemas que estão em terra firme são os mais relevantes, e nós nos apropriamos de 40% da PPL gerada em terra, mesmo um aumento de quatro vezes é um calculo exagerado; da mesma forma que alcançar 100% é irreal, visto que somos incapazes de gerir diretamente todas as espécies que compõem os ecossistemas dos quais dependemos. Além disso, é ridículo estimular a preservação da biodiversidade sem estar disposto a interromper o crescimento econômico que exige que o homem assuma o controle de espaços ocupados por outras espécies.

(1) Considere o seguinte cálculo, com base em uma estimativa bruta de que os Estados Unidos usam atualmente 1/3 do fluxo anual de recursos do mundo (Comissão Nacional de Políticas Materiais, 1973). Estabelecemos que R é o consumo de recursos atual no mundo, R/3 é o consumo de recursos atual nos Estados Unidos. O consumo de recursos per capita atual no mundo seria R dividido por 5,3 bilhões. Para o consumo de recursos per capita futuro no mundo igualar o consumo per capita atual dos EUA, considerando uma população constante, R deve ser acrescido de um múltiplo; vamos chama-lo de M. Então, M vezes R dividido por 5,3 bilhões deve ser igual a R/3 dividido por 250 milhões. O resultado M é 7. O fluxo de recursos no mundo deve aumentar sete vezes se todas as pessoas forem consumir na mesma média atual dos EUA. Mas mesmo um aumento de sete vezes é subestimar muito o aumento do impacto ambiental, por duas razões. Primeiro, porque o cálculo é em termos de fluxos atuais somente, com nenhuma margem para o aumento de estoques acumulados de bens de capital necessários para processar e transformar o maior fluxo de recursos em produtos finais. Alguma noção da magnitude dos estoques extras necessários vem da estimativa de Harrison Brown, de que “colheita” de metais industriais já incorporada no estoque existente de artefatos nas dez nações mais ricas exigiria mais de 60 anos de produção desses metais nas taxas de 1970. Segundo, porque o aumento líquido de sete vezes de minerais utilizáveis e energia exigirá um aumento maior nos fluxos de recursos brutos, considerando que precisamos minerar depósitos cada vez menos acessíveis e minérios de qualidade mais baixa. É o fluxo bruto que provoca o impacto ambiental.
(2) A produtividade primária líquida (PPL) do ambiente natural (não antropizado) é definida como a diferença entre a fotossíntese e a respiração autotrófica da vegetação natural, por unidade de tempo e espaço (Field et al., 1995; Sun et al., 2004; Feng et al., 2007).

Se o crescimento de cinco a dez vezes recomendado pela Comissão Brudtland é impossível, então que tal só manter a escala presente, isto é, crescimento líquido zero? Todo dia lemos sobre reações do ecossistema ao estresse gerado pela economia – como o aumento do efeito estufa, a destruição da camada de ozônio, a chuva ácida, e por aí vai -, o que evidencia que mesmo a escala atual é insustentável. Como, então, as pessoas podem continuar falando em “crescimento sustentável” quando: (a) escala atual da economia mostra sinais claros de insustentabilidade; (b) multiplicar essa escala por cinco ou dez, como recomendado pela Comissão Brundtland, nos levaria da insustentabilidade para o colapso iminente; e (c) o conceito em si é logicamente contraditório em um ecossistema finito, sem crescimento? Ainda assim, o crescimento sustentável é o termo mais falado do nosso tempo. Vez ou outra, a coisa beira o ridículo, como quando escritores falam solenemente de “crescimento sustentável na mesma taxa de aumento da atividade econômica”. Nós devemos não só crescer para sempre, mas também acelerar para sempre! Isso é verborragia política vazia, totalmente desconectada dos princípios físicos e lógicos primordiais.

Aliviar a pobreza, e não angelizar o PIB

A pergunta importante é a que a Comissão Brundtland apresenta, mas não enfrenta realmente: o quanto podemos aliviar a pobreza nos desenvolvendo sem crescimento? Eu confio de que a resposta seja uma quantidade significativa, porém menos do que a metade. Uma das razões para essa crença é que, se a expansão de cinco a dez vezes mais será realmente para o bem dos pobres, então terá de ser composta por coisas necessárias para os pobres – comida, roupa, abrigo -, e não por serviços de informação. Os produtos básicos em uma dimensão física em irreduzível, e a sua expansão demandará crescimento em vez de desenvolvimento, embora o desenvolvimento pela melhora da eficiência vá ajudar. Em outras palavras, a redução do conteúdo de recursos por dólar de PIB observada em alguns países ricos nos anos recentes não pode ser anunciada como o rompimento entre a expansão econômica e o meio ambiente, como alguns alegaram. Um PIB angelizado não vai alimentar os pobres. O desenvolvimento sustentável deve ser um desenvolvimento sem crescimento – mas com controle populacional e a redistribuição das riquezas -, se o que se almeja é um ataque sério à pobreza. Na cabeça de muitas pessoas, crescimento é sinônimo de aumento da riqueza. Elas dizem que devemos crescer para sermos ricos o suficiente para arcar com os custos da eliminação e cura da pobreza. Que todos os problemas são mais fáceis de resolver se formos forma os ricos, isso não está em discussão A questão é seu crescimento na margem atual realmente nos torna mais ricos. A evidência de que, nos Estados unidos, ele agora nos torna mais pobres, pois o crescimento aumenta os pontos mais rápidos do que aumenta os benefícios (Daly, Cobb, 1989, apêndice). Ou seja, parece que crescemos além da escala ótima.

Definir a escala ótima.

O conceito de uma escala ótima da economia agregada em relação ao ecossistema está totalmente ausente da teoria macroeconômica atual. Presume-se que a economia agregada cresce para sempre. A microeconomia, se dedica quase totalmente a estabelecer a escala ótima de cada atividade de nível microeconômico, equiparando os custos e benefícios a preços marginais, furtou-se de verificar se não há também uma escala ótima para o conjunto de todas as microatividades. Uma certa escala (o produto da população pelo uso de recursos per capita) constitui uma certa taxa de rendimento de recursos e, portanto, uma determinada carga no meio ambiente, e pode compreender muitas pessoas, cada uma consumindo pouco, ou menos pessoas, cada uma consumindo correspondentemente mais.

Uma economia em desenvolvimento sustentável adapta-se e aperfeiçoa se em conhecimento ou, organização, eficiência técnica e sabedoria. E ela faz isso sem assimilar ou acrescentar, além de certo ponto, uma percentagem ainda maior da matéria-energia do ecossistema dentro de si mesma; em vez disso,  ela para em uma escala em que o ecossistema remanescente (o meio ambiente) pode continuar a funcionar e a se renovar ano após ano. A economia estacionária não é estática, ela está sendo continuamente mantida e renovada, como meio ambiente.

Quais são as políticas implícitas para se alcançar o objetivo do desenvolvimento sustentável como definido aqui? Tanto os otimistas quantos os pessimistas devem concordar com as seguintes políticas para os Estados Unidos (o desenvolvimento sustentável deve começar com os países industrializados):

  1. Empenhar-se em manter a taxa de produção constante nos níveis atuais (ou em níveis reduzidos verdadeiramente sustentáveis), taxando pesadamente a extração de recursos, especialmente a energia.
  2. Procurar arrecadar o máximo de receita pública dos impostos de indenização de recursos.
  3. Compensar (atingir a neutralidade da receita), reduzindo o imposto de renda, especialmente nas camadas mais pobres da população, talvez até mesmo financiando um imposto de renda negativo nas camadas muito pobres.

Os otimistas acreditam que a eficiência do recurso pode aumentar em dez vezes devem acolher essa política, que elevaria consideravelmente o preço dos recursos, e daria grande incentivo justamente aos avanços tecnológicos em que tanto acreditam. Os pessimistas que não acreditam na tecnologia irão, mesmo assim, ficar felizes em ver as restrições impostas à já insustentável taxa de produção. Os pessimistas estão protegidos de seus maiores medos; os otimistas são encorajados a perseguir seus maiores sonhos. Se for provado que os pessimistas estão errados e o enorme aumento na eficiência realmente pode acontecer, eles não vão poder reclamar. Eles conseguiram o que mais queriam, e um bônus inesperado. Os otimistas, por sua vez, não podem contestar uma medida que permite e fomenta o progresso técnico, que é justamente a base do seu otimismo. Se for provado que estão errados, pelo menos deverão ficar felizes de que a taxa de destruição ambiental induzida pela taxa de produção tenha diminuído. Além disso, as taxas sobre a extração de recursos não renováveis são mais difíceis de evitar do que os impostos sobre os rendimentos, e não diminuem os incentivos ao trabalho.

Em termos de projeto, existem algumas orientações de políticas adicionais para o desenvolvimento sustentável. Os recursos renováveis devem ser explorados de modo que a taxa de extração não exceda a taxa de regeneração e a emissão de resíduos não exceda a capacidade de assimilação renovável do meio ambiente local.

Equilibrando recursos renováveis e não renováveis.

Os recursos não renováveis devem ser esgotados a uma taxa igual a taxa de criação de substitutos renováveis os projetos com base em exploração de recursos não renováveis devem ser emparelhados com projetos que desenvolvam substitutos renováveis. As rendas líquidas da extração não renovável devem ser separadas em um componente de renda e um componente de liquidação de capital. O componente de capital a ser investido todo ano de um substituto renovável. A separação é feita de modo que, quando o recurso não renovável estiver esgotado, o recurso renovável já terá se desenvolvido pelos investimentos e crescimento natural ao ponto de sua produção sustentável ser igual ao componente de renda. O componente de renda se tornará, assim, perpétuo; justificando o nome “rendimento” que é por definição, o máximo disponível para o consumo, mantendo o capital intacto. Foi demonstrado (El Serafy, 1989, p. 10-18) como essa divisão de renda sem capital e rendimento depende: 1) da taxa de desconto (taxa de crescimento do recurso renovável substituto); e 2) da expectativa de vida do recurso não renovável (as reservas divididas pela taxa de esgotamento). Quanto mais rápido por crescimento biológico do recurso substituto renovável e longa a sua expectativa da vida, maior será o componente de rendimento e menor será a reserva de capital. O “substituto” aqui deve ser interpretado amplamente para incluir qualquer adaptação sistêmica que permite a economia se adaptar à exaustão dos recursos não renováveis de uma maneira que mantenha os rendimentos futuros em determinado nível (reciclagem, no caso dos minerais, por exemplo). As taxas de retorno para os projetos emparelhados devem ser calculadas com base somente no seu componente de rendimento. Contudo, antes que esse passo operacional em direção ao desenvolvimento sustentável possa ter oportunidade justa, devemos primeiro tomar as medidas conceituais e políticas de abandonar o introjetado chavão do “crescimento sustentável”.

 

Foto: https://pixabay.com/pt/

RECONSTRUIR A VERDADEIRA SEGURANÇA NA ERA DA INSEGURANÇA – Vandana Shiva.

ESTE TEXTO É DA VANDANA SHIVA, QUE FOI PUBLICADO NO LIVRO ECONOMIA DE GAIA,  ORGANIZAÇÃO DO GAIA EDUCATION.

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A HUMANIDADE PARECE ESTAR em queda livre rumo ao desastre. A estrutura ecológica da nossa existência está sendo destruída à medida que a violência da globalização corporativa se une à violência da guerra.

Alternativas à guerra, à não sustentabilidade e à justiça social e econômica têm se tornado uma imposição para sobrevivência. Ela precisa combinar a atitude de fazer as pazes com o planeta com atitude de fazer as pazes entre pessoas de culturas distintas. Uma não é possível sem a outra. As raízes do terrorismo, da violência e da guerra encontram-se na exclusão econômica e ambiental e na segurança que ela gera. A segurança das pessoas não está em orçamentos militares mais volumosos, bombas maiores e nem estados policialescos mais fortes. Está na segurança ecológica, econômica, cultural e política. A reconstrução dessas múltiplas seguranças é a única maneira de criar paz, justiça e sustentabilidade.

Por que nós, como espécie, estamos destruindo o próprio alicerce de nossa sobrevivência e existência? Por que a insegurança tem sido o resultado de todas as tentativas de criar segurança? Como nós, na condição de membros da comunidade da terra, podemos reinventar a segurança para garantir a sobrevivência de todas as espécies e o futuro de culturas distintas? Como passar das ruínas da cultura da morte da destruição para cultura que sustenta e celebra a vida?

Podemos fazer essa passagem libertando-nos da prisão mental da separação e da exclusão, para ver o mundo em toda sua interconexão e indissociabilidade, permitindo que novas alternativas surjam. O desespero se transforma em esperança. A violência abre caminho para não violência. A escassez se transforma em abundância, e a insegurança, em segurança. Precisamos mais uma vez sentir em casa na Terra e entre nós. Temos necessidade de um novo paradigma que nos permita passar da cultura difusa da violência para cultura da não-violência, da criatividade e da paz: esse é o paradigma da Democracia da Terra.

 A Democracia da Terra se baseia na criação de ECONOMIAS VIVAS que protejam a vida na Terra, supram as necessidades básicas e promovam segurança econômica para todos. Ela tem como base uma democracia ativa, que é inclusiva. O movimento da Democracia da Terra é um compromisso de superar a crise da injustiça e da desigualdade econômica, da não sustentabilidade ecológica, o declínio da democracia e a ascensão do terrorismo. Esse movimento oferece uma visão de mundo alternativa, na qual seres humanos estão integrados a família terrestre. Começamos a ver que estamos conectados pelo amor, pela compaixão, pela responsabilidade ecológica e pela justiça econômica, que substituem a ganância, consumismo e a competição como objetivos da vida humana.

Na Democracia da Terra, a economia, política e a sociedade passam de sistemas negativos, que beneficiam apenas alguns em curto prazo, para sistemas positivos, que garantem o direito fundamental a vida de todas as espécies. A manutenção da vida em sua diversidade e a integridade é a base das relações na Democracia da Terra.

Assim, ela transforma nossa mente e nossas ações, e nos livra de padrões de pensamento e para que nos levaram a situação difícil em que estamos hoje. Também nos ajuda a enfrentar as raízes comuns de problemas que são definidos, isoladamente, como econômicos, ecológicos e políticos. A Democracia da Terra nos capacita a fazer mudanças mentais e contribuem para a satisfação de nossas necessidades tem dentre outras espécies e culturas, e para o aprimoramento do bem-estar humano, enquanto assegura o bem-estar de todos os seres. Na Índia, rogamos: “Que todos os seres sejam felizes”.

A Democracia da Terra agrega princípios que nos permitem transcender a polarização, as divisões e as discussões que colocam a economia contra ecologia, o desenvolvimento contra o meio ambiente, as pessoas contra o planeta, e as nações umas contra as outras, em uma nova cultura de medo e ódio. A Democracia da Terra está simbolizada nas fazendas que revitalizam a biodiversidade e nas espécies que atuam em mutualidade para beneficiar umas às outras. Ela também oferece um novo contexto ao ser humano, como um dos membros da família terrestre e das diversas culturas no mosaico da diversidade cultural.

Visto que as outras espécies não votam, não podem influenciar políticos e não tem poder de compra no mercado, a Democracia da Terra nos obriga, como humanos, a levar em conta o bem-estar das espécies. Como Sua Santidade o Dalai Lama disse em seu 60º aniversario: “Todos os seres têm direito ao bem-estar e a felicidade. Temos o dever de garantir o seu bem-estar”. Isso cria a responsabilidade humana de atuarmos com administradores, em vez da noção preponderante de soberania, controle e posse.

A Democracia da Terra privilegia a diversidade de forma e de função na natureza e na sociedade. Quando a relevância e o valor intrínseco de todas as formas de vida são reconhecidos, as diversidades biológicas e cultural desabrocham. As monoculturas são resultado da exclusão e da dominação de espécies: único tipo, uma única raça, uma única religião, uma única visão de mundo. Elas são uma indicação de coerção e de perda da liberdade. Liberdade implica diversidade. Diversidade significa liberdade.

A Democracia da Terra nutre a diversidade pela superação da lógica da exclusão, do Apartheid, do “nós e eles” e do “uma coisa ou outra”. Ela implica a multifuncionalidade, na lógica do “e” e da inclusão. Transcende a polarização falsa do selvagem versus o refinado, da natureza versus a cultura, e até mesmo falso choque de culturas. Leva em consideração o conjunto da agrofloresta, tanto a área agrícola quanto a florestal, reconhece que a biodiversidade pode ser preservada e também pode suprir as necessidades humanas. Por meio da substituição das monoculturas pela diversidade e dos sistemas unidimensionais pela multidimensionalidade, a economia negativa da criação de escassez pode ser substituída pela economia positiva da abundância compartilhada, da provisão garantida das necessidades básicas e do acesso aos recursos vitais. Diversidade a criatividade prosperam na natureza e na cultura.

A Democracia da Terra coloca a responsabilidade do centro das nossas relações com os direitos decorrentes dela; diferentemente do paradigma dominante, em que há direito sem responsabilidade e vice-versa. A separação de direitos e responsabilidade está na raiz da devastação ecológica e das desigualdades de gênero e classe. As corporações que lucram com a indústria química, ou a poluição genética derivada das plantações geneticamente modificadas, não são obrigadas a arcar com o fardo dessa poluição. Os custos sociais e ecológicos são exteriorizados e pesam sobre os outros, que foram excluídos das decisões e dos benefícios.

A Democracia da Terra baseia-se na aqueles que pagam o preço por terem voz, e aqueles que carregam uma responsabilidade por terem direitos. Isso cria uma democracia direta ou básica. Por um lado, implica o deslocamento descendente das decisões, indo das instituições globais e dos governos centralizados para as comunidades locais. Por outro, implica uma mudança na nossa interpretação de soberania. Portanto, a Democracia da Terra transfere a constelação de poder das corporações para as pessoas, e desse modo, reequilibra o papel e as funções do Estado, que vem se tornando cada vez mais antidemocrático.

A Democracia da Terra tem a ver com a vida, com direito natural às condições de estar vivo. Trata-se da vida cotidiana das decisões e liberdades relacionadas ao dia a dia – a comida que comemos, as roupas que vestimos, água que bebemos. Não se trata apenas de eleições e do ato de votar. É uma democracia permanentemente vibrante. Combina democracia econômica com as democracias política e ecológica. Ela gera economia, políticas e identidades positivas. Também cria segurança e, assim, condições para a paz.

 Ela oferece potencial para mudar a maneira como o governo, organizações e corporações intergovernamentais operam. Cria um novo paradigma para a governança global, enquanto dá poder as comunidades locais. Também cria a possibilidade de fortalecimento da segurança ecológica, à medida que aprimora a segurança econômica. Com base nas seguranças ecológica e econômica, ela torna as sociedades imunes ao vírus do ódio e do medo. A Democracia da Terra oferece uma nova maneira de ver as coisas, na qual algo não está em guerra como com todo o resto, mas por meio da qual podemos cooperar para a criação da paz, da sustentabilidade e da justiça.

CORONAVÍRUS: DECRESCIMENTO ECONÔMICO FORÇADO, SOFRIDO, MAS NECESSÁRIO PARA UM NOVO RECOMEÇO.

Desde a década de 70, um economista chamado André Gorz, baseado nas teses do criador da Bioeconomia Nicholas Georgescu-Roegen, vem apostando que seria necessário um decrescimento econômico para que atingíssemos a sustentabilidade.

A tese do decrescimento baseia-se na hipótese de que a economia neoclássica – entendida como aumento constante do Produto Interno Bruto (PIB) – não ser sustentável para o ecossistema global. Esta ideia é oposta ao pensamento econômico dominante, segundo o qual a melhoria do nível de vida seria decorrência do crescimento do PIB e portanto, o aumento do valor da produção deveria ser um objetivo permanente da sociedade.

A questão principal, segundo os defensores do decrescimento é que os recursos naturais são limitados e portanto não existe crescimento infinito. A melhoria das condições de vida deve, portanto, ser obtida sem aumento do consumo, mudando-se o paradigma dominante.

Muitos compreenderam esta tese, tanto que, durante muitas décadas vem sendo proposto o Desenvolvimento Sustentável (tem posts anteriores falando sobre, procure pela tag Sustentabilidade): desenvolvimento capaz de suprir as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade de atender as necessidades das futuras gerações. Em outras palavras, o desenvolvimento sustentável é aquele que assegura um crescimento econômico viável, sem esgotar os recursos para o futuro, atuando de uma forma socialmente justa e ambientalmente correta.

No entanto, 50 anos após a tese do decrescimento econômico, o que aconteceu foi um aumento do PIB em 8x, e por outro lado a poluição ambiental e os problemas sociais também aumentaram, além do aumento da temperatura da atmosfera causando as mudanças climáticas e outros impactos nos serviços ecossistêmicos que suportam a vida humana no planeta Terra.

Entramos em 2020 com a maior certeza de que o modelo econômico atual é insustentável, e que medidas urgentes precisariam ser tomadas. Afinal, iniciamos a década da ação para atingir os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, entramos na década decisiva para conseguir frear o ritmo de aquecimento global antes de que seja tarde demais.

Apesar de muitos movimentos propondo mudanças e novas formas mais saudáveis de atingir o desenvolvimento sustentável, o ano de 2020 era esperado por muitos a tão retomada do crescimento econômico, como era o caso do Brasil.

Mesmo sabendo o que se têm de fazer, as grandes economias não pareciam querer abrir mãos do poder, dos lucros, crescimento e da competitividade em prol da Sustentabilidade.

Mas por ironia do destino, parece que a natureza sabendo que nós, humanos, não abriríamos as mãos do crescimento econômico, e que dificilmente conseguiríamos atingir o equilíbrio socioambiental para permitir que ela se regenerasse para continuar nos suprindo com os recursos renováveis e serviços ecossistêmicos, ela (natureza) decidiu frear todos, igualmente.

Através da antiga cultura de dominação homem-natureza, de superioridade homem-animal, um novo vírus surgiu, o Covid-19, e em um ritmo extremamente acelerado, parou o mundo.

De repente, obrigatoriamente atingimos um decrescimento econômico. E ao contrário do que estávamos acostumados, onde as decisões dos homens de poder não afetavam igualmente a todos, e estávamos acostumados uns terem mais do que outros, o Covid-19 não foi seletivo. Pela primeira vez todos estão sendo igualmente afetados. É claro que, no resultado final, os mais vulneráveis sairão muito mais impactados.

O Coronavírus chegou para dar fôlego ao Planeta Terra. É incrível como podemos ver a Regeneração da Natureza. O primeiro exemplo veio da China, após a publicação das imagens de satélite da NASA, com o antes e depois do isolamento e parada das indústrias, o índice de qualidade do ar melhorou significativamente. Depois as imagens do rio Veneza, na Itália, que voltou a ter água clarificada, e também imagens do céu da maior cidade da América Latina, São Paulo, onde muitos paulistanos não estavam acostumados a ver estrelas com frequência.

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Fonte: NASA

É claro que, não precisaríamos aprender desta forma, na dor e sofrimento. Milhares de pessoas estão morrendo e milhões perdendo empregos no mundo inteiro, além de muitas empresas que irão a falência. Mas, não aprendemos e/ou não quisemos fazer diferente ao longo das últimas décadas, mesmo sob tantos avisos dos cientistas. E mesmo que se tivéssemos um pouco mais conscientes e preventivos, não era garantido que não seríamos atingidos por esta pandemia. Afinal, é impossível ter o controle sobre esta grande teia de relações sociais e ecológicas.

O Coronavírus parece ser o novo dilúvio só que na época depois de Cristo. Um reseat ao nosso modo de vida, aos nossos valores. Nós estamos passando por uma grande transformação juntos, em escala planetária. Será necessário um grande recomeço, uma reconstrução, e agora mais do que nunca temos a chance de fazer diferente.

Durantes os últimos 2 anos eu tenho acompanhado e me especializado em novos modelos de se relacionar com o meio ambiente. Ao contrário da cultura atual ser de soma zero (ganha-perde), precisamos passar para uma cultura de soma não-zero (ganha-ganha) exigindo uma cultura de colaboração generalizada a fim de que a natureza também vença (ganha-ganha-ganha) e vença primeiro, afinal ela que é a provedora de toda abundância da qual dependemos. Para isso, é necessário agir como ela. Utilizar o exemplo dos processos naturais que não desperdiça nada, além de ser extremamente eficiente, a natureza é EFETIVA, faz da melhor forma possível o que precisa ser feito, gerando transformação, para levar de volta ao seu estado de equilíbrio.

Durante centenas de anos, o homem aprendeu a ciência, mas não muito de como utilizá-la. Os métodos de pensamentos fragmentados, reducionistas e mecanicistas já não cabem mais no ecossistema que vivemos. Diversos físicos e cientistas modernos vem apontando para uma nova realidade sistêmica e um mindset ecológico.

Além do propósito de trazer estes conceitos ecológicos para os processos a fim de atingir a Gestão Efetiva dos Aspectos Ambientais, a Mutação Sustentável tem a visão de ser um agente para disseminar essa nova cultura emergente, uma Cultura Regenerativa.

O desenvolvimento Regenerativo é a evolução do desenvolvimento Sustentável. Quando falamos em Sustentabilidade, significa manter o equilíbrio daquilo que existe do jeito que é para ser, natural e saudável para todos. Só que o que temos feito atualmente é a “Sustentabilidade” do que não pode ser sustentável, do desequilíbrio. Agora, primeiramente temos que regenerar e dar a condição de voltar para o estado de equilíbrio dinâmico natural, para posteriormente sim, apoiar-se no desenvolvimento sustentável.

Já existem muitos movimentos com novas formas de pensar a Sustentabilidade e atingir a Regeneração, como por exemplo a Economia Circular, a Bioeconomia, Economia Colaborativa, dentre outros, mas eram vistos por muitos como: “isso não é viável”, “não é possível”, “não funciona”, “é muito (…)ismo”, simplesmente porque muda vários paradigmas, tiram da zona de conforto e por isso, é pouco difundido e discutido. Porém, diante da pandemia Coronavírus, estes novos movimentos precisam ser intensificados e considerados para a reconstruir a sociedade e a economia de uma forma mais justa e saudável para todos.

Ao longo dos próximos dias irei compartilhar nas redes da Mutação Sustentável quais ensinamentos a crise do Coronavírus está nos trazendo que está relacionado com modelos e conceitos existentes, novos paradigmas que, devem se manter para um recomeço Regenerativo transformando as nossas relações, modo de vida e os nossos negócios.